quarta-feira, 9 de março de 2016

O que não cabe é seu preconceito

Descrição para cegos: a foto retrata a estudante Márcia Lima, à esquerda. Ela está maquiada, utiliza um colar no pescoço e tem cabelo black power.

Por Vitória Nunes


        “Cabelo não é identidade, tanto é que você corta” – essas foram as palavras do Diretor institucional do Sitrans, Anchieta Bernardino, em entrevista ao programa da Rede Globo Encontro com Fátima Bernardes. O diretor se referia ao cabelo da estudante Márcia Lima, de Campina Grande, que foi impedida de fazer o cartão de passe estudantil por causa do seu cabelo black power.
         O caso aconteceu em um terminal de integração da cidade de Campina Grande e repercutiu tanto nas redes sociais que Márcia também foi entrevistada em jornais e programas televisivos locais e de Rede Nacional. A estudante portava todos os documentos solicitados e realizara os procedimentos necessários, mas não conseguiu fazer o cartão de passagem para ônibus, pois, segundo a empresa responsável, ela teria que mudar a foto que havia levado para o cadastro. Intrigada com a situação, Márcia questionou e a responsável pelo sistema alegou que a estudante deveria tirar a foto com os cabelos presos para que o procedimento validasse. 
         A jovem havia obedecido a todos os requisitos impostos pela empresa para a foto 3x4. Era recente, estava nítida, tinha fundo branco, não tinha outras pessoas e ela muito menos usava adereços. Aí vem a grande questão: Por que todos podem fazer foto 3x4 de cabelos soltos e Márcia, na situação, não pôde? 
        A problemática é bem mais grave do que a validação no sistema operacional do Sitrans e se resume em uma palavra: RACISMO. Pior do que o da empresa citada, é o sistema que rege a sociedade atual. Exclui, miseravelmente, inúmeras pessoas por causa das suas identidades! Márcia, assim como outros milhares de brasileiros negros, sofre exclusão cotidianamente pelo preconceito racial que é contraditório com a evolução do tempo, é arcaico, remete aos tempos da escravidão.
       Sabemos que identidade, no dicionário, significa um conjunto de características que identificam uma pessoa. Ao pararmos para analisar a frase mal colocada pelo diretor do Sitrans, iremos perceber a falta de conhecimento básico acerca do tema discutido. A pluralidade do Brasil é construída pelas inúmeras identidades que caracterizam cada grupo étnico.
       Não só os cabelos, mas a cor dos olhos, da pele, a religião, constituem a identidade de um ser e devem ser respeitadas e aceitas, afinal, todas as pessoas têm características singulares, senão seríamos todos iguais. 
       A identidade negra não é diferente. Ela deve ser exaltada sem nenhum tipo de adaptação. As mulheres negras não devem ser excluídas por não alisarem seus exuberantes cabelos cacheados, crespos ou usá-los soltos. Todo tipo de identidade deve ser aceito, respeitado e caber dentro de uma foto 3x4. O que não cabe dentroda sociedade é o seu preconceito. 

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